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História

História da Insuficiência Cardíaca do Brasil e 20 anos do DEIC

Evandro Tinoco Mesquita, Ana Paula Chedid, Lídia Moura, José Albuquerque, Fabiana Marcaondes, Fernando Bacal, Maria da Consolação, Nadine Clausell.

 

O Departamento de Insuficiência Cardíaca (DEIC) da Sociedade Brasileira de Cardiologia completa 20 anos de existência em 2020 e representa um robusto legado nas áreas de atividades científicas e associativismo da cardiologia brasileira. A sua construção mostrou um papel relevante no enfrentamento da insuficiência cardíaca (IC), uma complexa síndrome clínica progressiva e frequentemente fatal. A IC deve ser abordada de forma multidisciplinar, apoiada na ciência translacional e nas boas práticas (diretrizes e protocolos clínicos), envolvendo pacientes, famílias, cuidadores, gestores e toda a sociedade, tendo em vista impactos sociais da IC no Brasil e no mundo.
 

Com o envelhecimento da população e aumento da sobrevida das condições cardiovasculares, a prevalência da IC está aumentando globalmente, com uma estimativa de 26 milhões de pessoas acometidas, além de milhares de casos não diagnosticados 1. A IC é causa líder de hospitalização no mundo e isso resulta em uma sobrecarga em todos os níveis de cuidado. Estima-se que a IC afeta aproximadamente 2,5 milhões de pessoas no Brasil e estudo recente revelou o seu impacto financeiro no Brasil, com um gasto estimado de R$ 22,1 bilhões/6,8 bilhões de dólares no ano de 2015 2.  Além disso, o estudo mostrou uma substancial perda de bem-estar, dos 521.941 de anos de vida perdidos ajustados por incapacidade, ajustados para comorbidades, há 270.806 de anos de vida saudável perdidos em virtude de incapacidade e 251.941 de anos de vida perdidos em decorrência de morte prematura.
 

O DEIC foi idealizado a partir da liderança da Professora Maria da Consolação Vieira Moreira e teve o apoio do Professor Gilson Soares Feitosa, na ocasião presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia (1999-2001), mobilizando líderes de todo o Brasil, com destaque do professor Edimar Alcides Bocchi, levando a formação do Grupo de Estudos de Insuficiência Cardíaca (GEIC) no ano de 2000. Em 6 de julho de 2001, sob a presidência da Professora Maria da Consolação, foi realizado, em Belo Horizonte, o I Simpósio Brasileiro de Insuficiência Cardíaca, por ocasião do XII Congresso da Sociedade Mineira de Cardiologia. Com uma trajetória de sucesso, construída por líderes da insuficiência cardíaca do país, devido ao crescimento do número de associados e relevância na produtividade científica, o GEIC foi se transformando paulatinamente no Departamento de Insuficiência Cardíaca (DEIC), finalmente criado em 2011, na gestão do Professor Fernando Bacal. Este fato importante ocorreu durante o X Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca – ao comemorar 10 anos da fundação do GEIC, na cidade de Belo Horizonte.
 

Desde sua criação, são realizados, anualmente, congressos de elevada qualidade científica, com intercâmbio internacional e que proporcionam à comunidade médica brasileira aprimoramento do estado da arte do cuidado multidisciplinar e tratamento da IC. Nos últimos congressos, temos mais de 1000 inscritos e cerca de 200 temas livres são apresentados, possibilitando trocas de experiências com especialistas de várias localidades e nomes de referência, do Brasil e do mundo. Em 2020, devido aos impactos da pandemia do novo coronavírus, o DEIC, de forma revolucionária, realizou um congresso virtual - HEART FAILURE SUMMIT BRAZIL 2020, com a proposta de apresentar e debater os principais avanços que nos últimos 12 meses transformaram a IC e serão motivos para mudanças na nossa Diretriz de IC prevista para ser lançada no primeiro semestre de 2021.
 

Cumprindo seu papel científico, o DEIC tem seu importante projeto de Diretrizes e Atualizações, com os objetivos de demonstrar estratégias e propor recomendações baseadas em evidências. A primeira Diretriz publicada de IC, na forma de um consenso, foi em 1992, em uma fase antes da formação do DEIC, realizada em São Paulo sob a coordenação do estimado mestre Dr. Michel Batlouni. Destaque- se, aqui, a publicação em 2014, do I Registro Brasileiro de Insuficiência Cardíaca – Aspectos Clínicos, Qualidade Assistencial e Desfechos Hospitalares – BREATHE, organizado pelo Professor Denilson Campos de Albuquerque, projeto que traçou um panorama da IC em pacientes hospitalizados nas diversas regiões do país, identificando a aderência da incorporação de métodos diagnósticos e intervenções terapêuticas. Atualmente, está em curso o Registro Brasileiro da Síndrome de Takotsubo liderado pelo Professor Marcelo Westerlund Montera.
 

O DEIC tem, de forma contemporânea, ampliado sua abrangência técnico-científica, atuando na IC crônica, na IC aguda (sala de emergência/unidade cardiointensiva), na IC avançada (transplante cardíaco/suporte circulatório mecânico), na IC na criança e adolescente e também nas miocardiopatias. Na área das Miocardiopatias tivemos o pioneirismo das professores Marco Aurélio Dias, Francisco Manes Albanesi, Raul Carlos Pareto Junior, Antonio Carlos Pereira Barreto, Charles mady, que contribuíram para a formação de líderes na insuficiência cardíaca. Nos últimos cinco anos foram sendo criados em i   mportantes áreas temáticas os grupos de estudo: GETAC (Grupo de Estudos de Transplante Cardíaco e Assistência Circulatória Mecânica), GEICPED (Grupo de Estudos de IC na Criança e em Adultos Portadores de Cardiopatia Congênita) e GEMIC (Grupo de Estudos em Miocardiopatias). Dessa forma estamos nos organizando dentro da moderna visão de construir um ecossistema para colaboração e cooperação inter e multidisciplinar em diferentes subáreas, o que tem sido uma tendência nas sociedades internacionais de IC: HFA-ESC (https://www.escardio.org/Sub-specialty-communities/Heart-Failure-Association-of-the-ESC-(HFA) e HFSA (https://hfsa.org/).
 

Em 2004, foi idealizado o GEIC Jovem buscando incentivar o desenvolvimento científico e associativo dos jovens cardiologistas interessados na IC. A primeira reunião realizada no Congresso Brasileiro de Insuficiência Cardíaca em Salvador (2004), desde então, vem se transformando a cada ano e agregando novas lideranças e agora trazendo como foco a inovação e o empreendedorismo aos nossos congressistas.
 

Reafirmando seu papel social, com ações comunitárias e em políticas de saúde, durante o 73º Congresso Brasileiro de Cardiologia, o presidente do DEIC - Salvador Rassi, e o diretor científico - Evandro Tinoco Mesquita, oficializaram o Dia Nacional de Alerta contra a Insuficiência Cardíaca, comemorada no dia 9 de julho. A data foi escolhida por ser o dia do nascimento de Carlos Chagas, o nosso patrono. Esse primeiro ”cardiologista moderno” confirma a citação do saudoso Professor Nelson Botelho, pois usou a visão translacional, aproximando a bancada do leito e conectando um olhar sobre a saúde populacional na doença de Chagas. Além disso, criamos a comenda Carlos Chagas do DEIC destinados aos colegas que se destacam nas áreas de ensino/educação, assistência, inovação, científica e associativismo.
 

A próxima década nos traz novos desafios: primeiro, consolidarmos os caminhos para uma nova área de atuação na cardiologia – o especialista em IC. Na presente década, várias iniciativas, alinhadas à visão contemporânea já bem estabelecida em outros países, foram criadas com o objetivo de promover e capacitar especialistas em IC, garantindo a formação com qualidade técnica e científica.

 

Além disso, um olhar mais amplo sobre prevenção na IC envolve a compreensão do modelo de doença cardiometabólica crônica 3, passando a ser fundamental unir hipertensão arterial sistêmica, obesidade, dislipidemia e diabetes melittus na gênese, progressão e tratamento da IC. E por fim, a necessidade do cuidado integral da IC, cooperando medicina da família, geriatras, internistas e paliativistas. Ao lado disso, os avanços da medicina digital e da genômica vão construindo uma medicina cardiovascular personalizada na IC que transformarão os conceitos de prevenção, diagnóstico e tratamento, conforme tem sido desenvolvido na amiloidose cardíaca e nas miocardiopatias hereditárias. A pandemia por COVID-19 reforça o conceito de cardiovigilância, pois estudos que utilizaram a ressonância cardíaca identificaram que, mesmo em pessoas sem sintomas, há um grau de agressão ao coração e que deverá ser estudada quanto ao risco futuro do desenvolvimento de miocardiopatia dilatada e insuficiência cardíaca sintomática.  

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Figura 1 – Desafios do DEIC 2020-30

 

Referências:

 

  1. João Pedro Ferreira, Sarah Krausy, Sharon Mitchellz, Pablo Perelx, Daniel Piñeirojj, Ovidiu Chionce, et al,. World Heart Federation Roadmap for Heart Failure. GLOBAL HEART, 2019; 14(3): 197-214;
     

  2. Bryce Stevens, Lynne Pezzullo, Lara Verdian, Josh Tomlinson, Alice George, Fernando Bacal. Os Custos das Doenças Cardíacas no Brasil. Arq. Bras. Cardiol. 2018; 111 (1): 29-36;
     

  3. Jeffrey I. Mechanick, Michael E. Farkouh, Jonathan D. Newman, W. Timothy Garvey. Cardiometabolic-Based Chronic Disease, Adiposity and Dysglycemia Drivers. JACC 2019; 75 (5): 525-38